Atitudes racistas estão por toda parte. Por isso, a discussão e a implementação de ações antirracistas devem ser amplamente difundidas em todos os ambientes. Para debater o preconceito praticado na escola e/ou vivenciados por nossa equipe, o Grêmio Estudantil do Anglo-Brasileiro (GEAB) promoveu o fórum Falas Negras. Professores e funcionários negros foram convidados para relatar experiências em que foram vítimas ou testemunhas a todos os alunos do 6º EFAF ao 2º EM, bem como professores e demais integrantes da equipe. O objetivo é que, a partir dessa primeira atividade, o Grêmio, junto com a comunidade, planeje ações formativas contra o racismo que serão aplicadas no Colégio.
Mediado pela aluna Clara Tripodi, uma das presidentes do Grêmio, o debate contou com os relatos do professor Deivid Borges, da professora assistente Maria Inês, e das funcionárias Bete Oliveira e Raissa Oliveira. “Brancos nunca sofrerão racismo. Não existe racismo reverso porque brancos não foram torturados durante séculos. Devemos entender isso, e essa é a importância do fórum de hoje. Estamos num espaço de elite e, quanto mais elitizado o espaço, menos pessoas negras a gente encontra. Ouvir o outro, ouvir experiências que a maioria aqui nunca vai vivenciar, é essencial para construirmos nosso caráter e entendermos melhor o nosso país”, disse Clara ao abrir o evento.

Em seu relato, Bete falou sobre momentos que viveu num shopping de Salvador e na escola: “Fui numa loja comprar um vestido e uma das funcionárias me ignorou, não quis me atender. Cheguei em casa triste e contei para uma das minhas irmãs, que voltou à loja e descobriu que a funcionária era a gerente da loja. Em outra ocasião, uma pessoa da comunidade escolar foi orientada a me procurar para resolver uma situação do dia a dia e ela respondeu ‘eu vou procurar aquela negra?!’”. Em ambos os casos, Bete contou que se sentiu triste e diminuída, mas ela sabe que o problema não está nela, e sim no preconceituoso. “É massa ser negro, é bonito! A gente precisa olhar o outro de forma diferente, como se fosse parte de nós, porque somos todos iguais”, afirmou.
Inês, que também dá aulas particulares, contou que conversou com a mãe de um dos seus possíveis alunos e o discurso das primeiras conversas, que aconteceram por telefone, mudou ao se conhecerem pessoalmente. “Fui indicada por uma amiga dela, conversamos e, ao chegar na casa dela, ela me olhou e disse ‘ah! É você a professora?!’. Comecei o trabalho e uma semana depois ela me dispensou. Ficou óbvio, pelo tom e pelo comportamento dela, que o motivo foi o preconceito pela minha cor”, declarou.

Raissa enfrenta o racismo desde criança e falou sobre suas experiências e seus medos. “Eu moro numa cidade onde eu sou a maioria e me vejo como minoria. Eu estudei em escola particular, mas era a única menina negra da sala. Meu pai era servente, ia para as reuniões e ninguém dava atenção, ele não era reconhecido como pai na escola. Minha mãe é branca e tinha que sair comigo com minha identidade porque não acreditavam que ela era minha mãe. E ver a violência que vem acontecendo, nos EUA e no Brasil, me dá muito medo de entrar em uma loja e não ser vista como cliente, mas, sim, como uma ameaça”, pontuou.
Antirracismo – Deivid lembrou que o Brasil tem 520 anos de história pós-colonização e foram quase 400 anos de escravidão, violando o direito de existência de pessoas negras. “De que maneira a gente pode olhar para isso e propor efetivas mudanças? Para pensar o antirracismo, a gente tem que pensar na raiz do problema, que é histórico-cultural e estrutural brasileira. É inegável que a gente vai chegar numa escola como o Anglo e visualizar muita gente branca e pouca gente negra, mesmo numa cidade como Salvador, a cidade mais negra fora da África”, disse.

O professor ainda afirmou que, para pensar o antirracismo, primeiro é preciso descolonizar o olhar, “tirar do olhar essa lupa de ver uma pessoa negra e encaixar ela numa posição. É olhar para alguém e achar automaticamente que ela não pode comprar naquela loja”, explicou. Na escola, cada aluno pode fazer sua parte também. “Perceber no seu colega e em você se há algum tipo de comportamento colonizador: observar se um colega faz um comentário sobre o cabelo de outro colega, sobre a cor, se evita fazer um trabalho com ele, e questionar. Não é preciso acusar ninguém, apenas perguntar. Peça para que a pessoa explique os motivos para agir daquela forma”, orientou.
O aluno João Marcus Moura, do 1º EM, agradeceu pela iniciativa. “Esse evento está sendo muito importante porque a gente precisa abrir espaço para discutir o racismo, precisa ser pensado e, principalmente, para olhar as coisas que estão acontecendo ao nosso lado. Aqui no Brasil, a gente só discute racismo quando a pauta é EUA. A gente precisa olhar para os casos que acontecem aqui todos os dias e observar como a mídia e as pessoas, nas pequenas falas, reproduzem esse racismo, que está institucionalizado”, argumentou.
E não para por aqui! O GEAB vai dar continuidade à discussão e logo, logo teremos novas ações que envolverão toda a comunidade escolar. “Com esse projeto, que será estendido para 2021, o Grêmio pensará em ações junto com a comunidade para que todos possam se apropriar da questão do preconceito e fazer com que juntos possamos colocar em prática essas ações de combate e conscientização sobre o racismo”, afirmou a coordenadora do GEAB, professora Eniara Figueredo.
Nosso muito obrigado a todos que organizaram e contribuíram para a realização do Falas Negras!





Luiz Gama: o escritor e ativista baiano nasceu livre, mas foi vendido como escravo pelo seu pai português aos 10 anos, a fim de pagar dívidas. Escravizado, mudou-se para São Paulo onde fazia serviço doméstico. Aos 17 anos, aprendeu a ler, conquistou a alforria, passou a atuar como rábula (advogado sem diploma) e conseguiu libertar mais de quinhentas pessoas escravizadas, alegando que todo negro chegado ao Brasil após 1831 deveria ser livre, como dizia a Lei Feijó. Em 2018, foi declarado por lei como patrono da abolição da escravidão no Brasil, além de ter o nome inscrito no Livro dos Heróis da Pátria.
Maria Felipa: nascida na ilha de Itaparica, Maria Felipa foi uma das grandes forças baianas na luta pela Independência da Bahia. Muito corajosa e praticante da capoeira, Maria Felipa foi enfermeira e informante durante as batalhas. Em uma das passagens mais famosas de sua vida, ela e um grupo de 40 mulheres deram uma surra de cansanção em soldados portugueses e atearam fogo em 42 embarcações que estavam prestes a atacar Salvador.
Milton Santos: Conhecido mundialmente como um dos maiores geógrafos brasileiros, Milton desenvolveu novas compreensões de conceitos como espaço geográfico, lugar, paisagem e região. Em 1994, conquistou o Prêmio Vautrin Lud, o Nobel de Geografia, sendo o único latino-americano a conquistar essa premiação. Tinha um posicionamento crítico à globalização e ao sistema capitalista.
Teodoro Sampaio: baiano e filho de uma negra escravizada, Teodoro Sampaio foi engenheiro, geógrafo, escritor, historiador e um dos maiores pensadores brasileiros do seu tempo. Sua bibliografia inclui importantes contribuições sobre os bandeirantes e a formação do território, sobre os rios brasileiros, sobre as pinturas rupestres, os saberes indígenas, além de outros temas históricos e geográficos do Brasil.
Mãe Menininha do Gantois: escolhida aos 28 anos para ser Ialorixá (líder feminina) do terreiro do Gantois, em Salvador, Mãe Menininha se destacou ao dar visibilidade ao Candomblé e torná-lo conhecido entre intelectuais e políticos num período em que as celebrações do Candomblé e da Umbanda estavam proibidas. Com sua sabedoria, foi responsável por abrir as portas do Terreiro do Gantois aos brancos e católicos, garantindo mais respeito à religião.






